SANTA CATARINA X PARÁ: QUANDO UMA DIFERENÇA CULTURAL VIRA UMA BRIGA QUE NÃO REPRESENTA NINGUÉM
- Aug 28
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Há uma discussão que vem ganhando espaço nas redes sociais e que, olhando com um pouco mais de calma, revela muito mais sobre a falta de conhecimento de algumas pessoas do que propriamente sobre uma suposta incompatibilidade entre catarinenses e paraenses.
De um lado, catarinenses fazendo generalizações sobre o Pará e sobre os paraenses. Do outro, paraenses respondendo, muitas vezes, na mesma moeda. No meio disso, aparecem pessoas tentando transformar uma diferença cultural em uma espécie de campeonato para descobrir qual estado seria "melhor".
A pergunta é: melhor para quê?
Santa Catarina é um estado extraordinário. O Pará também.
E reconhecer isso não diminui ninguém.
O problema começa quando pessoas que muitas vezes nunca conheceram profundamente os dois estados, nunca viveram suas realidades e, em alguns casos, sequer conhecem suas histórias, começam a falar como se fossem especialistas em cultura, economia, comportamento e qualidade de vida de milhões de brasileiros.
É o clássico fenômeno das redes sociais: pouco conhecimento, muita certeza e bastante disposição para transformar opinião em verdade absoluta.
Uma briga que também virou oportunidade para buscar notoriedade
Existe ainda outro componente nessa história.
Algumas pessoas, tanto catarinenses quanto paraenses, perceberam que esse tipo de conflito gera engajamento. Uma provocação gera comentários. Uma resposta gera compartilhamentos. Uma ofensa gera indignação. E, quando se percebe, aquilo que começou como uma discussão banal se transforma em uma máquina de produzir curtidas, visualizações e seguidores.
Ou seja: há quem esteja mais interessado na briga do que na realidade.
Isso precisa ser dito.
Não são catarinenses contra paraenses.
Não são sulistas contra nortistas.
Não é Santa Catarina contra o Pará.
São indivíduos fazendo barulho nas redes sociais.
A imensa maioria dos catarinenses não está preocupada em atacar paraenses. E a imensa maioria dos paraenses certamente não está interessada em criar uma guerra cultural contra Santa Catarina.
Transformar comportamentos individuais em características de todo um povo é justamente o tipo de generalização que alimenta o problema.
O choque cultural existe — e isso é normal
É evidente que existe choque cultural.
Santa Catarina e Pará estão separados por milhares de quilômetros e possuem histórias, clima, formação populacional, culinária, sotaques, costumes, manifestações culturais e formas de relacionamento social bastante diferentes.
O catarinense pode estranhar determinadas características da cultura paraense.
O paraense também pode estranhar determinados hábitos catarinenses.
E tudo bem.
É justamente assim que funciona um país continental como o Brasil.
O problema não está em estranhar.
O problema está em transformar o que é diferente em algo inferior.
Conhecer outras culturas brasileiras deveria ser justamente uma oportunidade de ampliar horizontes. E não é preciso atravessar o oceano para fazer isso.
Dentro do próprio Brasil existem mundos completamente diferentes.
Quem nasce no Sul pode conhecer a Amazônia.
Quem nasce no Norte pode conhecer as serras catarinenses.
Quem cresce no Sudeste pode descobrir os sabores do Nordeste.
Quem vive no Centro-Oeste pode conhecer comunidades tradicionais da região Norte.
É assim que se constrói um país mais consciente de sua própria diversidade.
Santa Catarina tem motivos de sobra para ser admirada

Não há nenhuma necessidade de diminuir Santa Catarina para defender o Pará.
Santa Catarina possui uma economia diversificada, forte setor industrial, agricultura altamente produtiva, infraestrutura portuária estratégica, turismo consolidado, belas praias, regiões serranas, cidades com forte qualidade de vida e uma identidade cultural bastante particular.
O estado também possui uma enorme capacidade de atrair pessoas de outras regiões.
E isso inclui paraenses.
Muitos paraenses escolhem Santa Catarina justamente porque enxergam no estado oportunidades profissionais, segurança, organização, infraestrutura, belezas naturais, qualidade de vida e possibilidades de construir uma nova história.
Isso deveria ser motivo de orgulho.
Quando alguém do Pará escolhe Santa Catarina para viver, não está necessariamente rejeitando sua terra de origem.
Está reconhecendo as qualidades de outro estado brasileiro.
É perfeitamente possível amar o Pará e admirar Santa Catarina ao mesmo tempo.

Mas o Pará também precisa ser conhecido — e não apenas imaginado

O problema é que o Pará ainda é muito subestimado em partes do Sul e do Sudeste.
E muitas vezes essa visão é construída a partir de estereótipos.
Fala-se pouco sobre a capacidade científica, educacional, econômica, cultural e produtiva do estado.
Pouca gente fora da região conhece, por exemplo, histórias como a da estudante paraense Manuela Bentes Amorim Luzia, de apenas 12 anos.

Em julho de 2026, Manuela, de Barcarena, conquistou medalha de ouro na Categoria II de Matemática da Copernicus Olympiad – Global Round 2026, realizada em Nova York. A conquista colocou o município e o Pará em destaque em uma competição internacional.
E enquanto alguns tentam reduzir o Pará a estereótipos, estudantes paraenses também estavam levando tecnologia para o outro lado do mundo.
A equipe Born to Fight, da Escola SESI Ananindeua, conquistou em Pequim, na China, o primeiro lugar no FIRST LEGO League Asia Open Championship 2026 e recebeu o Champions Award, principal reconhecimento da competição. O torneio reuniu 160 equipes de 30 países e regiões.

Isso também é Pará.
É educação.
É ciência.
É tecnologia.
É talento.
Belém também mostra uma Amazônia que muita gente ainda não conhece
Existe ainda um enorme patrimônio cultural e gastronômico.
Belém foi reconhecida em 2026 como vencedora da categoria Melhor Experiência de Turismo Gastronômico no Prêmio Melhores da Gastronomia, promovido pela revista Prazeres da Mesa. A cidade também havia aparecido entre os dez melhores destinos gastronômicos do mundo no ranking da Lonely Planet em 2025.

Não é pouca coisa.
A culinária paraense é resultado de uma mistura histórica de influências indígenas, africanas e europeias, com ingredientes e preparações que possuem uma identidade extremamente própria.
Tacacá, maniçoba, tucupi, jambu, açaí, cupuaçu, peixes amazônicos e tantos outros produtos fazem parte de uma cultura gastronômica que merece ser conhecida antes de ser julgada.
E quem visita o Pará costuma descobrir algo que não aparece em discussões de internet: a hospitalidade.
O visitante que chega disposto a conhecer a cultura local encontra pessoas orgulhosas de apresentar sua terra, sua comida, seus mercados, suas festas, seus rios, sua música e sua história.
Um estado de riquezas que ultrapassam o imaginário
O Pará também possui uma importância econômica que não pode ser ignorada.
O estado é estratégico para a mineração brasileira, especialmente pela presença de grandes reservas e pela produção de minerais como minério de ferro e cobre. A região de Carajás possui importância nacional e internacional para o setor mineral, com investimentos bilionários previstos para a atividade.

Mas reduzir o Pará à mineração também seria um erro.
O estado possui enorme diversidade vegetal e uma poderosa economia baseada em produtos da sociobiodiversidade e da agricultura.
Açaí, cacau, mandioca, dendê e outros produtos movimentam cadeias produtivas que envolvem agricultores, extrativistas, comerciantes, indústrias e consumidores de todo o Brasil.
Dados do IBGE mostram a força desse setor: em 2024, o Pará foi o estado com maior valor de produção agrícola da Região Norte, com R$ 36 bilhões. Entre os principais produtos aparecem soja, cacau, açaí, mandioca e milho.

O Pará também lidera nacionalmente a produção de cacau e mandioca em diferentes levantamentos do IBGE. Em 2024, o estado respondia por cerca de metade da produção brasileira de cacau, segundo estimativa divulgada pelo instituto.
E existe ainda o patrimônio natural.
O chamado Sistema Aquífero Grande Amazônia, que envolve extensas áreas da Amazônia, incluindo o Pará, representa uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta. A dimensão dessa reserva reforça a importância estratégica da Amazônia para o futuro da segurança hídrica mundial.

Isso significa que discutir o Pará apenas como "um estado distante do Sul" é demonstrar desconhecimento sobre a própria importância geográfica, ambiental e econômica do Brasil.
Uma história de encontros culturais
O Pará também não é um lugar culturalmente fechado.
Pelo contrário.
A formação paraense recebeu diferentes povos e influências ao longo de sua história.
As comunidades portuguesas possuem papel importante na formação cultural e econômica do estado.

A presença japonesa também deixou marcas profundas, especialmente na agricultura, na produção de alimentos, no empreendedorismo e na formação de comunidades que fazem parte da identidade paraense.

Esses grupos foram incorporados à sociedade local e contribuíram para construir o Pará que existe hoje.
Isso demonstra uma característica importante: culturas diferentes não precisam necessariamente disputar espaço.
Elas podem se encontrar.
Podem se misturar.
Podem aprender umas com as outras.
E há uma coisa que pouca gente fala

Pará, Norte e Nordeste também ajudam a vender Santa Catarina para o restante do Brasil.
Quantas pessoas dessas regiões viajam para Santa Catarina todos os anos?
Quantas conhecem Balneário Camboriú, Florianópolis, Blumenau, Joinville, Serra Catarinense, praias, parques e cidades históricas?
Quantas voltam para suas regiões falando das belezas catarinenses?
Quantas famílias nordestinas e nortistas escolhem Santa Catarina para viajar, trabalhar, estudar ou morar justamente porque ouviram falar bem do estado?
Isso também é integração nacional.
Santa Catarina recebe pessoas de todas as partes do Brasil.
E essas pessoas também ajudam a divulgar Santa Catarina.
Não existe contradição nisso.
O paraense não precisa impor sua cultura
Essa talvez seja a parte mais importante.
O paraense que vive em Santa Catarina não precisa substituir a cultura catarinense.
Não precisa transformar Santa Catarina no Pará.
Não precisa impor sotaque, culinária, música ou costumes.
A cultura catarinense deve continuar sendo respeitada.
Mas o paraense também não deveria ser obrigado a esconder sua própria identidade para ser aceito.
A questão não é impor uma cultura.
É retirar uma injusta mancha que, durante anos, foi colocada sobre o Pará por pessoas que muitas vezes conhecem pouco ou quase nada sobre o estado.
O paraense não precisa dizer que o Pará é melhor que Santa Catarina.
Precisa apenas mostrar que o Pará é muito mais do que os estereótipos que algumas pessoas insistem em repetir.
E, da mesma forma, o catarinense não precisa provar que Santa Catarina é superior ao Pará.
Os dois estados têm problemas, virtudes, desafios, riquezas e características próprias.
No final, ninguém ganha com essa guerra
A discussão entre catarinenses e paraenses nas redes sociais pode até gerar engajamento.
Pode gerar curtidas.
Pode gerar seguidores.
Pode render vídeos, cortes, provocações e comentários.
Mas não constrói absolutamente nada.
Uma pessoa ofendendo outra por causa do estado onde nasceu não melhora Santa Catarina.
Também não melhora o Pará.
Não cria empregos.
Não resolve problemas públicos.
Não melhora a educação.
Não melhora a segurança.
Não desenvolve infraestrutura.
Não protege a Amazônia.
Não fortalece a economia.
Não faz ninguém conhecer melhor o Brasil.
Só gera desgaste.
O Brasil é grande demais para caber em uma disputa infantil entre estados.
Santa Catarina tem muito a ensinar.
O Pará também.
Santa Catarina tem praias, serras, indústria, agricultura, tecnologia, turismo, organização e uma cultura própria que merece ser preservada.
O Pará tem Amazônia, rios, biodiversidade, mineração, agricultura, gastronomia, ciência, cultura, história e uma riqueza natural que possui importância para o Brasil e para o mundo.
Um não precisa apagar o outro.
Pelo contrário.
Quanto mais um brasileiro conhece o outro, menor fica o espaço para o preconceito.
Assim como o povo de Santa Catarina, em sua maioria, recebe muito bem o povo paraense que escolhe o estado para viver, trabalhar, estudar ou visitar, o Pará também estará de portas abertas para receber os catarinenses.
Não para ensinar que um estado é melhor que o outro.
Mas para mostrar tudo aquilo que existe de melhor em seu território.
Porque, no fim das contas, antes de sermos catarinenses, paraenses, gaúchos, paulistas, mineiros, nordestinos ou nortistas, somos brasileiros.
E talvez esteja na hora de conhecer melhor o Brasil antes de querer ensinar aos outros como ele deveria ser.











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