O PAPEL DA PROPINA: BILHETE MANUSCRITO, LICITAÇÃO DIRECIONADA E SUSPEITA DE ESQUEMA MILIONÁRIO NA MERENDA DE BLUMENAU
- May 20
- 4 min read

Um pedaço de papel rabiscado à mão pode se transformar em uma das provas mais explosivas já reunidas pelo Ministério Público de Santa Catarina em uma investigação sobre corrupção dentro da Prefeitura de Blumenau.

No centro da Operação Arbóreo, deflagrada pelo Gaeco no último dia 7, está um bilhete simples: nomes de empresas, marcações com asteriscos e informações que, segundo os investigadores, indicam vazamento de dados sigilosos da licitação da merenda escolar do município. Para o Ministério Público, o documento ajuda a desenhar uma engrenagem que teria operado entre 2021 e 2024 para favorecer a empresa paranaense Risotolândia em contratos milionários de alimentação escolar.
A suspeita é devastadora: servidores públicos de alto escalão teriam atuado para manipular o processo licitatório, garantir vantagem competitiva à empresa e, em troca, receber percentuais calculados sobre os valores pagos pelo município.
Operação Arbóreo mira núcleo político e financeiro
A ofensiva do Gaeco cumpriu nove mandados de busca e apreensão em Blumenau, Indaial e Araucária, no Paraná. A investigação nasceu a partir das provas já coletadas no caso do suposto cartel das obras públicas em Blumenau. Durante a análise do material apreendido naquela investigação, promotores encontraram indícios de outro esquema — desta vez envolvendo a merenda escolar.
Segundo o Ministério Público, mensagens, arquivos digitais, relatórios financeiros e quebras de sigilo telefônico apontam o envolvimento de:
César Botelho
Ronaldo “Roni” Wan-Dall
César Poltronieri
Os três são apontados como integrantes do chamado “núcleo público” da suposta organização criminosa.
Na outra ponta aparecem:
Carlos Gusso
Elizete Furtado
Todos os investigados podem responder por corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa. Até o momento, não houve indiciamentos formais.

A licitação que mudou de rumo
A investigação sustenta que a disputa pela merenda escolar foi moldada para reduzir a concorrência e facilitar a permanência da Risotolândia, empresa que dominou o serviço de alimentação escolar de Blumenau por quase vinte anos.
Em outubro de 2021, mensagens entre Wan-Dall e Botelho revelariam preocupação com um parecer da Procuradoria-Geral do Município. O entendimento jurídico recomendava que a nova licitação fosse fracionada em lotes, aumentando a competitividade e permitindo a participação de mais empresas.
Mas, segundo o Ministério Público, houve reação imediata.
Wan-Dall teria enviado contrapontos defendendo exatamente o oposto: pregão presencial, lote único e ausência de fracionamento. Na prática, a mudança reduziria a concorrência e ampliaria as chances de manutenção da empresa já instalada no sistema municipal.
O parecer inicial acabou descartado.
A licitação seguiu em lote único.
E o resultado levantou ainda mais suspeitas.
“Manda eles entrarem com recurso”
Mesmo em férias, segundo os autos, Wan-Dall continuou acompanhando os bastidores da licitação.
Em janeiro de 2022, ele teria enviado áudios perguntando sobre o andamento do certame. Poucos dias depois, Botelho responde:
“Manda eles entrarem com recurso.”
Para os investigadores, o termo “eles” faz referência direta à empresa paranaense.
O Gaeco também afirma que Wan-Dall era o principal elo entre integrantes da prefeitura e representantes da Risotolândia.
O bilhete manuscrito e a suspeita de informação privilegiada
Em março de 2022 surge o documento que se tornou símbolo da investigação.
Botelho teria enviado a Wan-Dall uma fotografia de um papel escrito à mão contendo a lista das empresas habilitadas na licitação. Algumas estavam marcadas com asteriscos. Antes da imagem, a mensagem dizia:
“Preciso falar com você.”

No dia seguinte, segundo o Ministério Público, Botelho voltou a demonstrar urgência e encaminhou valores correspondentes às propostas das concorrentes da Risotolândia.
A interpretação do Gaeco é direta: a empresa teria recebido acesso antecipado às propostas rivais e conseguido apresentar o menor preço exatamente porque conhecia os números da concorrência.
Em abril de 2022, a Risotolândia venceu a disputa e assinou um contrato superior a R$ 35 milhões com a Prefeitura de Blumenau.
O “padrão” que chamou atenção dos investigadores
Depois da assinatura do contrato, o Ministério Público afirma que começa a surgir um comportamento repetitivo e considerado incompatível com a legalidade administrativa.
O relatório aponta:
elaboração de planilhas com pagamentos feitos à empresa;
cálculos recorrentes de 3% sobre valores empenhados;
viagens frequentes de Wan-Dall ao Paraná;
encontros reservados entre investigados em garagens, estacionamentos e residências.
Para o Gaeco, Botelho exerceria o papel de articulador político do esquema, enquanto Wan-Dall cuidaria da logística de coleta da suposta propina. Poltronieri aparece como responsável pelo suporte técnico-financeiro.
Já Carlos Gusso e Elizete Furtado são apontados como peças fundamentais da ligação entre a empresa e o núcleo público.
Merenda escolar virou crise administrativa, em Blumenau
O contrato da Risotolândia acabou rompido no ano passado após o esgotamento do valor previsto até dezembro de 2024.
A Procuradoria-Geral do Município recomendou que o vínculo não fosse renovado. A prefeitura precisou recorrer a uma contratação emergencial para evitar colapso no fornecimento da alimentação escolar.
A empresa tentou na Justiça reverter a decisão, mas o pedido liminar foi negado.
O episódio ampliou o desgaste político da gestão municipal e levantou questionamentos sobre fiscalização contratual, controle interno e possível omissão administrativa diante de indícios que agora estão sob investigação criminal.
Um escândalo que ultrapassa a política
O caso da merenda escolar não envolve apenas suspeitas de fraude administrativa. A investigação atinge um dos setores mais sensíveis da gestão pública: a alimentação de crianças da rede municipal.
Se confirmadas as suspeitas, o esquema teria usado dinheiro destinado às escolas como fonte de vantagens ilícitas dentro da própria máquina pública.
Enquanto o processo segue sem denúncias formais, o material já reunido pelo Ministério Público indica que a operação Arbóreo pode ser apenas uma etapa de uma investigação ainda maior — capaz de aprofundar conexões entre contratos públicos, influência política e estruturas permanentes de corrupção dentro da administração municipal de Blumenau.
Informações: Ministério Público de Blumenau / NSC.











Comments